sexta-feira, 19 de março de 2010

A conversa final

Era uma manhã ensolarada. Um dia comum, se não fosse por todas as malas espalhadas pelo quarto, pelo frenesi dos pais correndo pra lá e pra cá para conferir os dólares, a passagem e mais um monte de coisa que envolve viagens.
Mas essa viagem mudaria a minha vida e a dele também.
- Quero que você seja feliz, sempre.
- Eu vou sentir muito sua falta, mas sei que é o melhor que eu posso lhe oferecer.
- Você já pensou que isso pode mudar pra sempre nossas vidas?
- Eu só penso que não quero te perder.
- Você não vai, e sabe disso.
- Mas eu tenho medo.
- Não precisa meu amor.
- Eu não quero ir.
-Mas você precisa. É o nosso futuro que está em jogo.
- Você sabe que eu nunca vou esquecer de você, né?
- Sei. Porque eu também não vou.
Ele começou a chorar de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Eu não sabia o que fazer, então simplesmente o abracei e deixei que as lágrimas dele escorrem pela minha blusa. Nesse momento a mãe dele entrou no quarto. Eu não sabia como reagir. Isso nunca havia acontecido antes. Simplesmente me retirei e deixei eles ali. Mãe e filho na sua intimidade. Eles conversaram por um tempo. Não sei o que porque não ousei ficar ali ou mesmo perguntar para ele. Assim que terminaram, ela me chamou.
Voltei ao quarto e ele estava mais tranqüilo.
- Você está melhor?
- Estou. Minha mãe me deu um calmante. Disse que faria eu me acalmar e poder viajar melhor.
- É só 1 ano, amor. Passa rápido. Você vai ver.
- É..
- Eu vou te visitar, esqueceu?
- Eu te amo.
- Eu também. Eu te amo de uma forma que eu não sei explicar. E por amá-lo tanto que deixo você ir.
- Você não tem medo?
- Tenho, amor. Tenho muito medo. Mas eu evito pensar nisso. E sim que você vai estudar. Conhecer gente nova, aprimorar a língua, conhecer uma nova cultura. E isso supera qualquer medo que eu venha a sentir.
- Me ajuda a conferir as coisas da viagem?
- Claro. Anotou todos os meus presentes?
- Você é muito boba mesmo, né?
- Alguma vantagem eu tenho que levar. Você vai viajar, ficar um ano longe de mim, vai conhecer um monte de lugar legal e não vai me trazer nenhum presente? Tá louco, né?
- Como eu te amo, guaximim.
- Eu também meu amor. Amo completamente.
Conferimos as coisas sem pensar muito no que estávamos fazendo. Meu coração estava apertado, mas eu tinha que ser forte. No carro não trocamos sequer uma frase. Não era preciso. Só de nos olharmos já sabíamos o que se passava. O pai dele estacionou o carro. Eram 18h30. Pegamos a mala e nos dirigimos até o local de embarque. A viagem era às 22h, mas como era voo internacional, ele devia chegar às 19h. Ele fez o check-in e veio na minha direção. Eu não conseguia olhar pra ele sem sentir uma dor muito forte. Eu o amava. Eu queria que ele fosse seguir a vida dele. Mas sabia que isso ia doer muito.
- Você vai me esperar?
- Eu preciso responder?
- Eu vou te escrever todos os dias. A gente vai se ver. E por favor, não deixa de ver, falar com minha família. Eles são o elo mais próximo de mim que você vai ter.
- Eu sempre vou ter você.
- Não deixa de fazer nada, nunca. E eu nunca vou te esquecer.
- Para, é só 1 ano, eu já falei.
- É..
- Vem cá, me dá um beijo.
- Eu te amo.
- Eu sou louca por você.
- Eu vou voltar pra você.
- Não precisa, você sempre vai estar no meu coração.
- Promete que não vai esquecer que eu te amo.
- Só se eu for louca.
Nos beijamos. Não sei quanto tempo ficamos ali abraçados, com os olhos cheios de lágrimas, uma dor no coração. Mas com a certeza de que isso mudaria nossa vida para sempre. E mudou.

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