sexta-feira, 7 de maio de 2010

Mendigo do amor

Era um dia como qualquer outro. Eu vagava pela rua como um cão sem dono. Na verdade, na época era exatamente isso que eu era. Mas depois de conhecê-lo não precisava mais usar esse termo. Fernando era meu mais novo dono. Não tive muitos. Uns aqui, outros ali, mas ninguém verdadeiramente fixo. Eu enjoava deles ou então começavam a me tratar mal, mas Fernando era diferente.

O céu estava nublado, típico dos dias paulistanos, e eu andava por ai, como quem não quer nada. Acredito que era exatamente isso o que ele fazia também. Eu nunca entendi como ele conseguiu chegar aquela situação. Não entendo o mundo dos homens. Eles fazem as coisas sem pensar, se arrependem, matam uns aos outros, mas não fazem nada para mudar seu modo de vida.

E lá estava eu, andando pelo famoso Minhocão da cidade de São Paulo. Vagava sem rumo, a procura de um canto pra ficar, de uma companhia ou de alguns restos de comida para me alimentar. De cabeça baixa eu ia farejando as coisas a minha volta. O cheiro da poluição era mais forte que qualquer outra sensação no ar. Mas aquele aroma me chamou atenção. Eu podia até imaginar aquela comida, a massa quentinha que acabou de sair do forno, a manteiga derretendo naquele pão.
Em meio esses aromas eu avistei aquele homem alto, magro, com uma aparência de cansado, a barba imensa e suja, roupas com um cheiro desagradável. Eu olhei para ele, e num gesto caridoso ele dividiu o pão comigo. Ele poderia ter me ignorado como muitos, mas me olhou e num simples ato partiu o pão e o levou a minha boca. Nunca comi com tanto gosto.

Aquele momento foi um dos momentos mais importantes da nossa jornada. Ali começamos uma verdadeira amizade e aos poucos fomos nos conhecendo. Como eu não sabia o nome dele, o chamava de meu dono e ele me chamava de Lupi. Já tive muitos nomes. Bob, Billy, Cãozinho, e agora mais um. Juntos continuamos andando pelas ruas de São Paulo, em busca de um lugar para ficar.

A jornada continuou, até que farejei um cheiro de carne. Mal sabia eu, que ali seria o local onde ficaria com meu dono. As pessoas que ali estavam nos receberam com muito carinho. Logo nos deram um pedaço de carne que juntos devoramos e água para beber. Ficamos saciados. Uma praça na região oeste, mais precisamente na Barra Funda. Naquele lugar conheci meu dono e sua triste história.

Fernando, 39 anos, professor, formado em geografia numa das melhores faculdades da cidade, casado, sem filhos e ex-morador do bairro Santana.

Ele era feliz. Há dois anos vivia com sua mulher, Cláudia. Eles se conheceram na faculdade. Ela fazia algumas disciplinas e em meio as festas de quinta-feira, em que o professor dava uma escapadas eles começaram uma conversa que depois de 3 anos levou a um rápido e marcante casamento.

Mas Cláudia era diferente de Fernando. Ela atuava na área da odontologia e todos os dias ia trabalhar no consultório dela e de um amigo de faculdade. Ela era feliz, ao menos aparentava. Adorava a profissão e tinha muitos clientes. Diferente de Fernando. Meu dono gostava muito de geografia, mas não era feliz dando aula para tantos alunos. Ele queria mesmo era estudar e estudar, e isso que fazia. Pegava o mínimo de turmas possíveis para ajudar no sustento da casa e passava o dia em bibliotecas, internet, sempre pesquisando e debatendo sobre os problemas sociais do país. Não tinha muitos amigos, mas não ligava. Ele se contentava em ter apenas o amor de Cláudia. Meu dono amou aquela mulher desde o dia em que a conheceu. Era um amor tão absurdo que deixava de fazer as coisas para poder cuidar dela, ficar ao seu lado e amá-la sempre e sempre. Só que Cláudia não era assim. Uma pena ele não ter descoberto isso a tempo.
Todos os dias, Fernando se ocupava dos afazeres da casa. Cozinhava, passava, limpava a louça, fazia comia e depois ia pro seu trabalho. Ensinava História do Brasil e os problemas sociais no nosso século. Não sei ao certo o que isso significa, mas pela expressão que as pessoas a nossa volta sempre faziam devia ser algo interessante. Ao todo ele tinha 4 turmas. Segundo ele esse era um bom número porque não ficava estressado e ainda tinha tempo para cuidar das suas coisas.
O amor deles no início era avassalador. Passeavam, se amavam, viviam na casa dos amigos dela em jantares, almoços, mas com o tempo, Fernando passou a amar muito aquela mulher, ao ponto de não querer que ela saísse mais sozinha ou com quem ele não conhecia. O amor dele por ela estava virando uma obsessão, e isso passou a deixá-la cada vez mais distante dele. Se antes, ela saia do trabalho e ia para casa, agora a situação era diferente.

Ela não conseguia ficar muito tempo ao lado dele, mesmo ele intensificando os seus trabalhos em casa para cuidar dela. Cláudia já não notava mais nada, reclamava de tudo, vivia muito tempo longe de casa, não comia o que ele fazia e cada vez esnobava mais o Fernando.

Vejo nossa situação agora. Fernando passa longos dias bebendo, fumando e sem rumo. Ele disse que nunca teve vícios, mas era diferente. Fiquei imaginando se foi o amor que sentiu por ela que causou isso. Se realmente amar é capaz de acabar com a vida de uma pessoa, se o amor era assim mesmo, eu agradeço por nunca ter amado.

Ganhamos a vida vendendo bebida e ajudando as pessoas ali naquela praça. Íamos ao bar e Fernando pedia garrafas abertas para assim podermos vender. No início morávamos em 6 pessoas numa barraca, mas com o tempo e generosidade das pessoas que passavam pela praça, nos deram uma nova barraca. Assim, Fernando mudou-se junto com mais um amigo para o novo iglu. Estava feliz por ter uma nova casa e um dono tão bom.

Nossos dias eram tranqüilos. Ficávamos ali sentados o dia todo. Ás vezes ele saia pra passear comigo e andávamos pelas ruas ali ao redor. Mas às vezes ele não acordava muito bem e bebia muito. Nesses dias eu não saia do lado dele. Tinha medo que alguma coisa acontecesse. Eu queria cuidar dele.

Quando num dia ele voltou para casa, preparou tudo, arrumou as coisas, queria agradar Cláudia. Tudo estava perfeito, senão por um detalhe, ela não voltou mais para o lar deles. Fernando ficou desesperado. Procurou em tudo quanto foi lugar. Ligou para familiares, amigos, conhecidos, mas ninguém sabia dela. Ele não sabia o que fazer. Começou beber, fumar, passar as noites em claro tentando entender porque ela fez isso com ele. Um marido exemplar, sempre presente. E assim, ele enlouqueceu.

Aos poucos Fernando foi definhando. Não mais comia, se banhava ou mesmo se cuidava. Não queria saber de mais nada. E num dia ele resolveu sair por ai, vagando sem rumo pelas ruas, até o dia em que me encontrou. Não entendo, até hoje, porque ele deixou de viver. Não consigo entender como um sentimento tão nobre pode levar um homem a tal ponto. Eu gostava do Fernando, mas não a ponto de deixar minha vida, que é simples e pobre, por ele. Sei que ele me é fiel e eu sou a ele, mas o amor próprio é o mais importante sentimento. E Fernando não mais tinha.

Agora ele está melhor. Ele nunca fala nela. Ás vezes quando está muito bêbado ele fala muito dela. Ele ainda a ama muito, mas agora dá para ver que ele se ama também. E tem amigos. Aqui somos uma comunidade. Todos se ajudam e nunca deixamos ninguém sozinho.

Ele tem a mim. Meu dono e amigo.

3 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Parabéns pelo texto e que História!
É o cão nunca abandona o homem independente da situação, classe social entre tantas outras coisas que fazem uma pessoa esquecer o amor próprio, onde nunca podemos amar muito aos outros mais do que a si mesmo fato!

paradigmas universal disse...

Nossa quanta nostalgia, uma imensa dor encarnada na saudade. (acho que as pessoas não deveriam ser tratadas como propriedade)


ALexandre élis nos conhecemos hoje me visite Paradigmas universal.