As pessoas correm apressadas, se esbarram, não se olham. E com ele não é diferente. Passou por ela e nem notou sua presença.Ela não é mulher de chamar atenção. É feliz do seu jeito. A única forma que encontra de encantar as pessoas é não buscar forma alguma. É ser do jeito que é.
Ela estava em casa, sem nada de interessante para fazer. Na verdade estava lendo um livro que mostra o quanto as pessoas são moldadas e segundo o sistema proposto essa seria a maneira mais eficaz de evolução, já que os homens por se distinguirem em castas e pela monogamia acabam por brigarem e conseqüente reverberando a dimensões inanimadas. Opinião essa que se distingue da sua. Ela não crê que com a monogamia as pessoas lutariam mais umas com as outras. É certo que o ser humano procura o melhor para reproduzir, é do sistema animal buscar o mais forte para poder procriar, e isso ela não pensa ser o responsável pelas brigas ou desafetos entre as pessoas. As pessoas, segundo ela, deveriam aceitar mais o que elas têm e não ficar querendo se sobrepor umas as outras. É certo que somos e sempre seremos divididos em castas, que alguns detêm de mais poderes que outros. Mas isso não nos condiciona a brigar com o próximo, só nos leva a buscar formas de atingir metas, e para isso não é necessário eliminar o outro. Também não é certo se adequar ao sistema e muito menos burlá-lo, deve-se sim, traçar planos e ir em busca deles, com seu próprio esforço. Ela pensa muitas coisas quando lê esse livro.
Ela está quase acabando quando uma janelinha no meu computador aparece piscando. Ela vive com seu status ocupado, na verdade são poucas às vezes em que ela realmente está, mas não vem ao caso.
Sua amiga está nervosa, acabou de descobrir que era traída pelo namorado, como se isso fosse novidade pra ela. Mas sua amiga nunca desconfiara do que era obvio, então não seria ela quem ficaria martelando na cabeça dela o contrario. Meu Deus, ela percebe que foi tomada pela indiferença. Ela não se importa com o fato da amiga ter descoberto ou mesmo do namorado ser traidor. Ela vê que está pouco ligando pra isso. Na verdade, lá vêm ela com suas explicações. Não que ela não se importe com isso, é que para ela tantas coisas são mais importantes que o próprio umbigo de sua amiga. Não que isso justifique sua reação. Ela consola sua amiga, dizendo coisas que todos dizem. Sabe-se lá se vai mudar ou ajudar em alguma coisa, mas só de ter dito alguma coisa já redime sua indiferença. Ela realmente foi tomada pelo sistema.
Uma outra janela pisca. Um rapaz que ela conheceu na festa que havia saído no final de semana passado. Parece interessante. Na verdade é aquele que não havia notado sua presença. Porém, após uma ajuda de seu fiel escudeiro, ele se dirigiu até ela. E não para menos ficou encantado com seu jeito único de ser.
Ele inicia a conversa com um simples oi, como vai?!, ela já gostaria que fosse uma proposta pra sair. Eles nunca se beijaram, trocaram telefones, apenas dançaram e ela nunca se sentiu tão enlaçada por alguém. Ela não está apaixonada ou louca por ele. Quer apenas uma aventura. Bom, seus desejos foram, enfim, solicitados.
Ele, junto com uma galera vai viajar para um acampamento em uma cidadezinha vizinha. Momento ideal para ela reunir suas amigas e a atual solteira da turma para um passeio de final de semana.
Ela liga rapidamente para suas amigas e marcam de no dia seguinte passar para pegá-las e assim seguir viagem. Ela se sente muito empolgada. Ela adora viagens inusitadas.
Ela chega ao local e a primeira coisa com que se depara é um longo vagão de trem abandonado. Ela fica surpresa. E não sabe o porquê dessa surpresa. Na verdade ela se sente instigada com aquele vagão. Ela vê sua vida passar por ele. É como se cada parte da sua vida fosse um vagão. E que ao longo vamos perdendo alguns, por cometer erros e não buscar corrigi-los, por deixar as coisas passarem, por fazerem algo que não deviam ter feitos. Mas que tudo se define a isso. Que tudo não passa de vagões e que devemos cuidar o máximo deles. Ou então, estaremos encaixados em padrões que ela já se vê dentro.
Quando se vê na presença de amigos como aqueles, ela não se sente completa, apenas mais uma no meio de um milhão, como se pra ela nada fizesse sentido. Ela já é uma pessoa confusa e em meio aquele momento, àquelas companhias, ela vê que não é ali que gostaria de estar, e sim puxando aquele vagão de volta pra sua vida.
Ela vê que não está nem um pouco interessada na amiga traída, no homem que não a notou, nos amigos que fez ou deixou de fazer. Ela quer apenas voltar ao vagão.
Ela corre de modo desenfreado até ele e fica a contemplá-lo. Ela vê o quanto perdeu tentando fazer parte da casta mais alta, do quanto perdeu tentando se enquadrar em quadros que ela sempre achou destorcidos.
Ela vai recuperar o vagão, vai conquistar quem sempre devia ter ficado ao seu lado. Ela não está com medo de errar novamente ou de receber vários nãos, ela só quer tentar. Ela cansou da sociedade individualista, embora ela faça parte de tal. Ela sabe de sua real situação, e não vai tentar mudá-la ou contorná-la, muito menos se adequar, ela vai viver. E não vai se importar com que vão pensar ou não dela.
Ela só que ir para casa e pintar suas unhas de vermelho.
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