quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A chuva pede palavras

Fazia tempo que eles não se viam. Não trocavam uma palavra. Ela já não sabia mais como dizer a ele o que sentia, e também não sabia se ele queria ouvir o que tinha a dizer.
Ela não sabe explicar como se deu o encontro.
O tempo estava escuro, as pessoas estavam com uma expressão séria e de vazio, a dela não era diferente. Em meio àquelas pessoas, ela se tornava mais uma. Mais uma em meio à multidão que vaga sem saber aonde quer chegar, mais uma que segue sem rumo e não olha para o lado.
Ele estava preso no trânsito, uma coisa bem comum em uma quinta - feira às 17h30 e ouvia Lenine. Não sei se pensava nela nesse instante, afinal fazia 3 anos que não se viam e não se falavam.
Mas, ela sempre que ouvia a voz macia e suave do cantor, só conseguia pensar e lembrar dos momentos que estava ao lado dele. Quando estava com ele, ela não se sentia como ‘mais uma’. Ela se sentia única e exclusiva, se sentia feliz.
Por ela eu posso falar, eu a entendo, já por ele, não tenho a audácia e nem o atrevimento de tentar compreender.
O primeiro pingo de chuva cai na face quente dela. Que alívio ela sentiu quando aquela gota tocou sua pele, fora uma sensação indescritível. Porém, com a chuva, vem o tormento.
As pessoas começam a abrir seus guarda-chuvas, outras começam a correr com medo dela, mesmo sabendo que isso não adianta. Mas ela não corre e não se protege, simplesmente continua andando e sorri.
O vidro do carro fica embaçado, e ele sente um calor absurdo dentro do carro. Ele resolve estacionar o carro e entrar em um café. Ele não tem pressa em chegar em casa, está entediado o bastante pra ter que ligar a TV e ver as noticias ruins a serem contadas.
Ela chega até um café. Estava bem cheio, as pessoas falavam sem parar, fumando desesperadamente e bebiam.
Ele entra no café. As mesas estão todas ocupadas, em geral por pessoas solitárias, lendo livros, ouvindo música ou simplesmente esperando assim como ele. O lugar está calmo e silencioso.
Ela bebe seu café, ouve conversas alheias, ri sozinha dos absurdos que ouve e vê. Mas, ela não está ali. E de repente começa a tocar Si tard, seus pensamentos voam até uma tarde de outono.
E esse pensamento cruza com o dele, nesse mesmo momento ele ouve a mesma música que ela. E agora sim, ele se vê pensando nela.
Ninguém sabe explicar o porquê, mas nesse exato momento, eles se encontraram. E ambos riram da sua solidão e do estágio que se deixaram chegar.
Eles resolvem ir embora, ambos vão caminhando, e quando chegam ao semáforo, o sinal fecha, a chuva aumenta e eles se olham.
Trocam olhares, até que pessoas apressadas os empurram porque querem atravessar a rua. Eles caminham juntos, se olhando, sem dizer uma só palavra.
Só vê-lo e ver aquele sorriso aberto em meio à chuva que cai em seu rosto, a fez corar e sentir a mesma adolescente boba de quando ele chegou a sua porta e sem dizer nada lhe deu um beijo.
Ao fim da rua, eles trocam algumas palavras bobas. Eles não sabem por onde começar a conversa, então seguem juntos lado a lado. Ele segurando o guarda-chuva, os protegendo.
Ela sentiu que naquela hora o dia se ilmunara e que nada mais importava, apenas estar ao seu lado, mesmo sem dizer nada.
Quem sabe a chuva não os faça falar.

Por Milena Nepomuceno

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