Pelo Trio Elementar
“Hoje descobri que não enxergava.
Há um mês meus olhos foram banhados em um mar de leite, meu desespero foi muito grande. Saber que não poderia mais ver me deixou em estado de choque. Ninguém tinha qualquer explicação sobre o meu caso. Não era uma cegueira negra, mais sim a junção de todas as cores, resultando em uma imensidão branca. Não conseguia fazer nada, pois não tinha minha visão. Mas com o passar do tempo descobri que não era a única e comecei a ver.
Não!
Meus olhos não voltaram ao normal, mais meus sentidos se afloraram.
Comecei a ver a ganância das pessoas em quererem se sobrepor sobre as outras, em como diante de situações de desespero muitas não se unem, mais sim criam seus próprios mundos e tentam se infiltrar no dos outros.
Meu olfato me guiava, meu tato me conduzia pelo vazio que antes conhecia, ou ao menos pensava conhecer. Ficar diante dessa situação só me fez ver que antes nada via. O fato de enxergar não dizia que eu realmente olhava para o que era relevante, meus olhos apenas captam as imagens que meu cérebro processava, imagens estas vazias e fúteis.
Com essa cegueira consegui ver que mais cego é aquele que vê mais não enxerga o quê está diante de si. A grande imensidão das pessoas em serem mesquinhas, individualistas. De pensarem apenas no seu próprio bem e esquecerem que se as pessoas que estão a sua volta, próximas de você, estiverem bem, você ficará bem e terá ajuda para conseguir sobreviver a esse mundo de loucos no qual passamos a viver. E ajuda era apenas o que mais me faltava. Sentia-me sozinha, abandonada, rodeada de vozes que eu não reconhecia, de pessoas que nunca tinha tido o prazer de ver, e que mesmo estando ao meu lado, era como se eu andasse sempre sozinha, em um mundo silencioso, coberto por um branco inexplicável. Às vezes tinha a impressão de que estava voltando a ver, que voltaria a ser tudo como era e que eu poderia voltar para minha casa, para meu trabalho, poderia voltar para a minha vida.
Também gostava de imaginar que não passava de um sonho, não, pior, de um pesadelo, do qual eu não via a hora de acordar. Mas eram apenas vontades que não se realizavam.
Já tive até vontade de morrer!
Por que mesmo não conseguindo ver qual a situação deprimente em que deveria estar a cidade e todos os seus habitantes, era possível imaginar. O cheiro que pairava no ar causava uma sensação de sujeira, de algo podre, que dava nojo. Pior ainda era você pisar e encostar em lugares que não fazia idéia do que poderia ser e qual a situação que o mesmo se encontrava. O certo é que higiene já não fazia parte do vocabulário de ninguém, e nem era possível, porque encontrar um banheiro no meio daquela confusão era algo que eu mesma já havia desistido de tentar.
Com essa minha cegueira vi o quanto às pessoas perdem seus sentidos. Que o fato de não ter a visão é como se não tivessem nenhum sentido.
Hoje, com minha visão ao normal, posso medir os fatos e realmente concluir que as pessoas mesmo vendo nunca enxergaram um palmo a sua frente.
As pessoas se esquecem que ver não é o mesmo que enxergar. Muitos vêem muitas coisas, mais não sentem.
Com minha cegueira pude sentir, me dar conta da total falta de compreensão e compaixão das pessoas.
Hoje percebo que eu mesma não enxergava nada, apenas via a vida passar. Foi horrível a sensação de não poder ver as coisas, mas me serviu de experiência de vida.
Vida a qual passei a dar mais valor, que antes era apenas vivida como um dia após o outro, mais agora, sei dar valor às pequenas coisas, aos pequenos gestos.”
Um comentário:
Nossa, estou impressionada. Foi exatamente assim que me senti quando perdi a minha boneca, há praticamente 2 meses atrás.
Na verdade, me senti não, tenho me sentido assim...as coisas mudam, os valores se invertem, as pessoas ficam feias....
Parabéns meninas, vcs escreveram algo extremamente tocante.
Bjs
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