quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

de um café, uma descoberta


Era noite. A chuva caía lá fora e com ela vinha um barulho de vento leve. Medéia adora a chuva, ela se sente limpa e leve, tanto que não corre ou se protege dela quando ela resolve aparecer.
Medéia é uma mulher solitária. Todo dia acorda, fuma um cigarro ainda na cama, seu colchão tem alguns furos de cinza derrubada. Então, ela se levanta, toma um longo banho ao som das notícias que saem do rádio portátil, lava seu cabelo dia sim e dia não. Ensaboa cada parte de seu corpo de forma leve e devagar. Ela leva em média 30 minutos em seu banho.
Ao sair toma apenas um café e come alguma fruta. Ela não se preocupa muito com a refeição matinal. Na verdade Medéia não se preocupa com refeição alguma, por isso apresenta quadros graves na sua saúde.
Medéia acende outro cigarro e vai pro seu dia longo e estressante de trabalho. Ela trabalha em uma repartição e fica o dia todo analisando dados e números. Ela odeia o seu trabalho.
Ela não tem muita esperança nas coisas. Porém, aquele dia seria marcado pra sempre na vida de Medéia.
Na volta pra casa, Medéia resolve ir ao teatro. Fazia tempo que ela não fazia algo realmente que fosse de seu agrado. Então, ela segue até o teatro, compra seu ingresso e aguarda em um café próximo. Ela teria de esperar 1 hora até o inicio da peça.
Ela pede apenas um café e logo acende seu cigarro. Medéia tinha um olhar triste. Ela nunca se apaixonara por alguém, teve alguns amores e desamores, alguns acertos, mas em sua maioria foram erros. E ao ficar ali sentada sozinha, vendo pessoas conversam, rindo, Medéia se deu conta de o quanto era triste.
Assim, um homem lhe pede o fogo emprestado. Como todas as mesas estão ocupadas, ele pede pra se sentar na mesma mesa que ela. Medéia de prontidão diz que sim. Ela nunca negara a companhia de ninguém.
Ele pede um café e um salgado, estava faminto. Tinha acabado de sair do trabalho e desde o almoço não comia nada.
Ele pergunta o nome dela, Medéia responde com um sorriso no rosto e logo, pergunta o dele. Celino, ele diz. E assim, uma conversa tímida começa entre eles. Perguntas de trabalho, gostos, filmes, peças de teatro, e sem perceber se passa 40 minutos.
Medéia e Celino vão assistir à mesma peça de teatro. Uma peça que fala sobre a descoberta do ser, a profunda e grande indecisão sobre a vida.
Medéia se comove durante a peça, e Celino em um gesto de carinho se cede seu lenço.
Após a peça, Celino sem querer ser abusado, convida Medéia pra um ultimo café, e para poderem continuar a conversa de antes.
Eles seguem pra um café um pouco mais distante dali. Durante o trajeto não falam muitas coisas, apenas sobre como a peça os tocou. E sem perceber, estavam confessando suas mais profundas vontades e desejos.
Medéia e Celino não sabem o tempo certo que ficaram conversando e trocando suas confidencias, apenas sentiram que aquele momento ficaria pra sempre marcado em suas vidas.
Ela nunca sentira uma confiança tão grande em alguém. Medéia tem medo das pessoas, medo que elas possam machucá-la, mas com Celino foi diferente.
Após longas horas de conversa, eles se despedem, trocam números de telefone e prometem um novo encontro.
E a noite estava linda, embora um pouco fria e sem estrela no céu. Medéia passou a ver aquele dia com outros olhos.
Medéia chega em casa, toma um longo banho, come uma fatia de pão e resolve se deitar.
Quando já estava na cama, fumando o ultimo cigarro da noite, seu celular vibra. Ela recebeu uma mensagem. Quem será à uma hora dessas, pensa ela. Era Celino lhe desejando boa noite e dizendo que nunca sentira uma sensação tão boa ao conhecer e conversar com alguém.
Medéia, a solitária, se torna uma adolescente e fica corada com uma mensagem que não esperava tão cedo. Ela se esconde debaixo da sua coberta. E relembra sua fase de adolescente em que trocava mensagens com seus namoradinhos, escondida, com medo de que sua irmã a visse mandando torpedos, ou visse o quanto feliz ela ficava com essa situação.
Ela se irradia de esperança. Medéia adora essa sensação que a tanto não sentia. E ela promete pra si que não vai deixar que isso seja em vão.
Celino, em sua casa, aguarda ansioso pela resposta e quem sabe um novo encontro. Ele está feliz. Diferente de Medéia, ele nunca teve problemas com relacionamento, embora achasse que nunca estava satisfeito ou completo o bastante. Mas, com Medéia ele sentira algo inexplicável.
Ambos trocam mensagens e por fim, resolvem que está tarde.
Medéia fecha seus olhos e ao som da chuva caindo adormece e sabe que o dia de amanhã será bem diferente de todos os dias de sua vida.


Por Milena Nepomuceno

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A chuva pede palavras

Fazia tempo que eles não se viam. Não trocavam uma palavra. Ela já não sabia mais como dizer a ele o que sentia, e também não sabia se ele queria ouvir o que tinha a dizer.
Ela não sabe explicar como se deu o encontro.
O tempo estava escuro, as pessoas estavam com uma expressão séria e de vazio, a dela não era diferente. Em meio àquelas pessoas, ela se tornava mais uma. Mais uma em meio à multidão que vaga sem saber aonde quer chegar, mais uma que segue sem rumo e não olha para o lado.
Ele estava preso no trânsito, uma coisa bem comum em uma quinta - feira às 17h30 e ouvia Lenine. Não sei se pensava nela nesse instante, afinal fazia 3 anos que não se viam e não se falavam.
Mas, ela sempre que ouvia a voz macia e suave do cantor, só conseguia pensar e lembrar dos momentos que estava ao lado dele. Quando estava com ele, ela não se sentia como ‘mais uma’. Ela se sentia única e exclusiva, se sentia feliz.
Por ela eu posso falar, eu a entendo, já por ele, não tenho a audácia e nem o atrevimento de tentar compreender.
O primeiro pingo de chuva cai na face quente dela. Que alívio ela sentiu quando aquela gota tocou sua pele, fora uma sensação indescritível. Porém, com a chuva, vem o tormento.
As pessoas começam a abrir seus guarda-chuvas, outras começam a correr com medo dela, mesmo sabendo que isso não adianta. Mas ela não corre e não se protege, simplesmente continua andando e sorri.
O vidro do carro fica embaçado, e ele sente um calor absurdo dentro do carro. Ele resolve estacionar o carro e entrar em um café. Ele não tem pressa em chegar em casa, está entediado o bastante pra ter que ligar a TV e ver as noticias ruins a serem contadas.
Ela chega até um café. Estava bem cheio, as pessoas falavam sem parar, fumando desesperadamente e bebiam.
Ele entra no café. As mesas estão todas ocupadas, em geral por pessoas solitárias, lendo livros, ouvindo música ou simplesmente esperando assim como ele. O lugar está calmo e silencioso.
Ela bebe seu café, ouve conversas alheias, ri sozinha dos absurdos que ouve e vê. Mas, ela não está ali. E de repente começa a tocar Si tard, seus pensamentos voam até uma tarde de outono.
E esse pensamento cruza com o dele, nesse mesmo momento ele ouve a mesma música que ela. E agora sim, ele se vê pensando nela.
Ninguém sabe explicar o porquê, mas nesse exato momento, eles se encontraram. E ambos riram da sua solidão e do estágio que se deixaram chegar.
Eles resolvem ir embora, ambos vão caminhando, e quando chegam ao semáforo, o sinal fecha, a chuva aumenta e eles se olham.
Trocam olhares, até que pessoas apressadas os empurram porque querem atravessar a rua. Eles caminham juntos, se olhando, sem dizer uma só palavra.
Só vê-lo e ver aquele sorriso aberto em meio à chuva que cai em seu rosto, a fez corar e sentir a mesma adolescente boba de quando ele chegou a sua porta e sem dizer nada lhe deu um beijo.
Ao fim da rua, eles trocam algumas palavras bobas. Eles não sabem por onde começar a conversa, então seguem juntos lado a lado. Ele segurando o guarda-chuva, os protegendo.
Ela sentiu que naquela hora o dia se ilmunara e que nada mais importava, apenas estar ao seu lado, mesmo sem dizer nada.
Quem sabe a chuva não os faça falar.

Por Milena Nepomuceno

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Então é Natal

Ah, então é Natal!
Ela nunca gostou desses lugares que começam a colocar os efeites de natal antes da hora, por exemplo bem no começo de novembro.
Mas, tenho que admitir que ela se vê dislumbrada nessa época. Como é bom passar por prédios iluminados, por ruas cheia de luizinhas. Parece que a noite dela se torna mais feliz.
É engraçado, ela adora.
Não vê a hora de poder andar a noite pelas ruas e se deparar com todas aquelas luizinhas a brilhar ou mesmo os inúmeros concertos feitos pelos bancos.
Ela não é muito de viver o espírito natalino, mas adoro sentir o frescor de sair nas ruas e ver tudo mais iluminado. Dá a impressão que as pessoas estão mais feliz.
Ela se senti viva, feliz, mais amada, mais vibrante.
Não há explicações para tal sensação, apenas é muito vibrante!
Viva o espírito natalino.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

em busca do vagão perdido...

Por Milena Nepomuceno
As pessoas correm apressadas, se esbarram, não se olham. E com ele não é diferente. Passou por ela e nem notou sua presença.
Ela não é mulher de chamar atenção. É feliz do seu jeito. A única forma que encontra de encantar as pessoas é não buscar forma alguma. É ser do jeito que é.
Ela estava em casa, sem nada de interessante para fazer. Na verdade estava lendo um livro que mostra o quanto as pessoas são moldadas e segundo o sistema proposto essa seria a maneira mais eficaz de evolução, já que os homens por se distinguirem em castas e pela monogamia acabam por brigarem e conseqüente reverberando a dimensões inanimadas. Opinião essa que se distingue da sua. Ela não crê que com a monogamia as pessoas lutariam mais umas com as outras. É certo que o ser humano procura o melhor para reproduzir, é do sistema animal buscar o mais forte para poder procriar, e isso ela não pensa ser o responsável pelas brigas ou desafetos entre as pessoas. As pessoas, segundo ela, deveriam aceitar mais o que elas têm e não ficar querendo se sobrepor umas as outras. É certo que somos e sempre seremos divididos em castas, que alguns detêm de mais poderes que outros. Mas isso não nos condiciona a brigar com o próximo, só nos leva a buscar formas de atingir metas, e para isso não é necessário eliminar o outro. Também não é certo se adequar ao sistema e muito menos burlá-lo, deve-se sim, traçar planos e ir em busca deles, com seu próprio esforço. Ela pensa muitas coisas quando lê esse livro.
Ela está quase acabando quando uma janelinha no meu computador aparece piscando. Ela vive com seu status ocupado, na verdade são poucas às vezes em que ela realmente está, mas não vem ao caso.
Sua amiga está nervosa, acabou de descobrir que era traída pelo namorado, como se isso fosse novidade pra ela. Mas sua amiga nunca desconfiara do que era obvio, então não seria ela quem ficaria martelando na cabeça dela o contrario. Meu Deus, ela percebe que foi tomada pela indiferença. Ela não se importa com o fato da amiga ter descoberto ou mesmo do namorado ser traidor. Ela vê que está pouco ligando pra isso. Na verdade, lá vêm ela com suas explicações. Não que ela não se importe com isso, é que para ela tantas coisas são mais importantes que o próprio umbigo de sua amiga. Não que isso justifique sua reação. Ela consola sua amiga, dizendo coisas que todos dizem. Sabe-se lá se vai mudar ou ajudar em alguma coisa, mas só de ter dito alguma coisa já redime sua indiferença. Ela realmente foi tomada pelo sistema.
Uma outra janela pisca. Um rapaz que ela conheceu na festa que havia saído no final de semana passado. Parece interessante. Na verdade é aquele que não havia notado sua presença. Porém, após uma ajuda de seu fiel escudeiro, ele se dirigiu até ela. E não para menos ficou encantado com seu jeito único de ser.
Ele inicia a conversa com um simples oi, como vai?!, ela já gostaria que fosse uma proposta pra sair. Eles nunca se beijaram, trocaram telefones, apenas dançaram e ela nunca se sentiu tão enlaçada por alguém. Ela não está apaixonada ou louca por ele. Quer apenas uma aventura. Bom, seus desejos foram, enfim, solicitados.
Ele, junto com uma galera vai viajar para um acampamento em uma cidadezinha vizinha. Momento ideal para ela reunir suas amigas e a atual solteira da turma para um passeio de final de semana.
Ela liga rapidamente para suas amigas e marcam de no dia seguinte passar para pegá-las e assim seguir viagem. Ela se sente muito empolgada. Ela adora viagens inusitadas.
Ela chega ao local e a primeira coisa com que se depara é um longo vagão de trem abandonado. Ela fica surpresa. E não sabe o porquê dessa surpresa. Na verdade ela se sente instigada com aquele vagão. Ela vê sua vida passar por ele. É como se cada parte da sua vida fosse um vagão. E que ao longo vamos perdendo alguns, por cometer erros e não buscar corrigi-los, por deixar as coisas passarem, por fazerem algo que não deviam ter feitos. Mas que tudo se define a isso. Que tudo não passa de vagões e que devemos cuidar o máximo deles. Ou então, estaremos encaixados em padrões que ela já se vê dentro.
Quando se vê na presença de amigos como aqueles, ela não se sente completa, apenas mais uma no meio de um milhão, como se pra ela nada fizesse sentido. Ela já é uma pessoa confusa e em meio aquele momento, àquelas companhias, ela vê que não é ali que gostaria de estar, e sim puxando aquele vagão de volta pra sua vida.
Ela vê que não está nem um pouco interessada na amiga traída, no homem que não a notou, nos amigos que fez ou deixou de fazer. Ela quer apenas voltar ao vagão.
Ela corre de modo desenfreado até ele e fica a contemplá-lo. Ela vê o quanto perdeu tentando fazer parte da casta mais alta, do quanto perdeu tentando se enquadrar em quadros que ela sempre achou destorcidos.
Ela vai recuperar o vagão, vai conquistar quem sempre devia ter ficado ao seu lado. Ela não está com medo de errar novamente ou de receber vários nãos, ela só quer tentar. Ela cansou da sociedade individualista, embora ela faça parte de tal. Ela sabe de sua real situação, e não vai tentar mudá-la ou contorná-la, muito menos se adequar, ela vai viver. E não vai se importar com que vão pensar ou não dela.
Ela só que ir para casa e pintar suas unhas de vermelho.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A vingança é um prato que se come frio

Por Milena Nepomuceno
A vingança permeia a vida de muitas pessoas, pode ela ser mostrada ou oculta, ela consiste na retaliação contra uma pessoa ou grupo em resposta a algo que foi sentido como prejudicial. Em geral, ela tem um objetivo mais destrutivo do que construtivo, e há uma busca de quem sofreu algo a de garantir que a ação não se repita nunca mais.
Muitos são os exemplos de vingança apresentados em filmes, novelas e outros do gênero. O filme Kill Bill retrata a vingança d’A Noiva (UmaThurman),codinome Black Mamba, ex-assassina profissional, parte do grupo DiVAS, Deadly Viper Assassination Squad. Na tentativa de se aposentar e levar uma vida normal em uma pacata cidade do Texas, A Noiva, grávida, está prestes a se casar, quando seus ex-companheiros de trabalho invadem a capela e matam friamente todos os presentes, inclusive o reverendo e sua esposa.
A abordagem feita pelo diretor Quentin Tarantino em que somos levados a rever o massacre na capela, durante o qual a protagonista foi baleada na cabeça por seu ex-amante Bill, consegue criar um clima de tensão crescente que culmina em um plano no qual a câmera sai da igreja, passa pelos quatro assassinos que trabalham para o vilão e afasta-se em direção ao céu, como se evitasse nos mostrar o terror que tomará conta do lugar. Isso para nos mostrar o grupo a ser procurado e posteriormente assassinado pela Noiva, (Uma Thruman) mostrando sua vingança a quem lhe causou mal.
Para a filósofa Martha Nussbaum, baseada nas bases morais, psicológicas e culturais, a vingança é, “O senso primitivo do justo — notadamente constante de diversas culturas antigas a instituições moderna . . . — começa com a noção de que a vida humana . . . é uma coisa vulnerável, uma coisa que pode ser invadida, ferida, violada de diversas maneiras pelas ações de outros. Para esta penetração, a única cura que parece apropriada é a contrainvasão, igualmente deliberada, igualmente grave. E para equilibrar a balança verdadeiramente, a retribuição deve ser exatamente, estritamente proporcional à violação original. Ela difere da ação original apenas na sequência temporal e no fato de que é a sua resposta em vez da ação original — um fato freqüentemente obscurecido se há uma longa sequência de ações e contra-ações". Perante a isso, tem-se que analisar as culturas de cada país, no Japão mantinha a honra da familia, clã através do assassinato vingativo.
A vingança é uma forma de auto expressão, ela pode não ser a mais certa forma de busca por soluções a quem lhe causou problemas ou danos. Porém, assim como disse a filósofa Martha para se tornar verdadeiramente satifeisto deve-se agir da mesma forma com que a ação original designada à pessoa.
Assim já dizia o ditado popular, vingança é um prato que se come frio. Os sistemas legais modernos ocidentais geralmente afirmam que sua intenção é a reabilitação ou a reinserção na sociedade. Porém, mesmo nestes sistemas a noção de justiça como vingança persiste em setores da sociedade. Diante isso não cabe a ninguém analisar o quão certo ou errado é o ato de se vingar de quem lhe fez mal, mas sim analisar o contexto a qual está inscrito.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

As mudanças provenientes da modernidade

Como a Rua Augusta se modificou ao longo dos anos

Carolina Paes, Giovanna Calhelha e Milena Nepomuceno
Augusta. Uma rua com a cara de São Paulo. Assim era conhecida a antiga Rua Maria Augusta, travessa da Avenida Paulista da cidade de São Paulo. Toda a sua extensão era como a veia principal dos grandes redutos culturais das décadas de 70 e 80. Era múltipla e cosmopolita, atraindo diferentes públicos e todos os tipos de contrastes: comércio popular e de elite, hotelaria de luxo e restaurantes sofisticados, bares simples e pequenos motéis.
No final dos anos 50, a Rua Augusta começou a atrair um comércio mais sofisticado, fixando-se como um novo centro de compras, além da difusão da moda, design e cultura da elite paulistana. O charme e todo o requinte da rua a transformava num grande pólo difusor de status, em que seus freqüentadores procuravam ao mesmo tempo o vouyerismo e o flânerie da metrópole paulistana, ou seja, ficavam vagando pela antiga Augusta na ânsia de verem e serem vistos, como maneira de se firmarem nessa nova sociedade em que é preciso ter para ser.
Mais adiante, por volta da dos anos 60 e 70, vira ponto de encontro da juventude paulistana, por meio dos cinemas e lanchonetes, em que os jovens lotavam nas tardes de domingo para curtirem e paquerarem. Com sua fama e grande ostentação a rua ganhou uma música “Rua Augusta”, que virou o hit de seus freqüentadores quando foi regravada pela Jovem Guarda na voz de Erasmo Carlos.
A rua fixou sua importância por ser a pioneira em diversas áreas, entre elas quando abrigou o primeiro Buffet de festas da cidade, o Buffet João Moura, a primeira boate gay, a Intend´s, e o primeiro espaço multicultural do país, o Pirandello, que se tornou o ponto de encontro de artistas, intelectuais e políticos que lutavam pela liberdade e redemocratização do país.
O movimento e as mudanças intensas do processo de modernização acabaram por transformar diversos pólos da cidade. As mudanças econômicas com o advento das indústrias proporcionaram um enorme contingente de pessoas para as cidades. Esse movimento excessivo transformou socialmente e culturalmente as ruas paulistanas, além é claro de influenciarem em suas estruturas. A Rua Augusta foi uma delas, já que passou de uma visão rebuscada para uma mais vulgar.
O boom dos shoppings Centers (novos redutos públicos/privados), fez com que a burguesia migrasse, reduzindo o movimento da rua. Foi nessa época que a Rua Augusta começou a entrar em declínio e passou a ser invadida por pessoas com um poder aquisitivo menor, além da efervescência de shows “alternativos” – gays e travestis – que passaram a mistificar a rua. É a partir daí, que ela começa a ganhar as características de hoje, deixando seu lado luxuoso, e partindo para a vulgarização, sendo sinônimo de uma aparência desgastada e de alta prostituição.
É evidente a grande perda da tradição desta rua, que por anos foi considerada símbolo de sofisticação e modernidade paulistana, no momento que os grandes casarões se tornaram estacionamentos, lojas, prostíbulos, e casas de festas. Como hoje, o foco da rua são os jovens, não é vantajoso, restaurar esses lugares, porque o público alvo busca espaços novos e modernos.
Há também uma desestabilização social, a partir do momento em que se torna um espaço inseguro e mal iluminado. Inseguro, porque passa a ser freqüentada por públicos diversificados e desta forma acaba sendo transformada em palco de agressividade e violência. Atitude que mostra que o amor, a preocupação com próximo e a tolerância com a alteridade, estão se extinguindo e dando lugar ao novo conceito característico da modernidade, o individualismo.
A falta de iluminação também nos remete ao surgimento de um novo conceito, a indiferença. Antigamente, com o surgimento dos boulevares, as pessoas permaneciam mais tempo nas ruas, davam importância umas as outras e usavam esse tempo para melhor se relacionar. Hoje em dia, pórem, a modernidade transformou esse ato em algo irrelevante, indiferente. Já não é necessária boa iluminação, porque as pessoas já não se importam com quem está do seu lado, apenas consigo mesmas.
No momento atual, novas lojas, centros culturais e cinemas, como o Espaço Unibanco, o CineSesc, estão sendo instalados com o objetivo de atrair novamente o público jovem, além da reforma das calçadas e a adesão de desenhos, tipo grafites, na faixada dos comércios. Tudo isso como uma forma de alcançar a sua antiga tradição, marcada pela diversidade e difusão cultural.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O poder do espírito olímpico

Os jogos Olímpicos do ano de 2008 foram realizados em uma das potências mais emergentes e contraditórias do mundo, a China. Por ser um país comandado por um Partido Comunista, em que o comportamento social e organizacional é totalmente controlado de uma maneira autoritária, liberdade é uma palavra em extinção na China.
A imprensa local e internacional censurada viu no espírito olímpico uma abertura maquiada, uma vez que qualquer tipo de manifestação dentro do país que iam contra os ideais do governo chinês, eram imediatamente reprimidos e abafados.
Segundo Skinner, psicólogo fundador do Behaviorismo, abordagem que busca entender o comportamento em função das interrelações entre história genética e ambiental do indivíduo, é necessário introduzir a ele um contracontrole. A partir do momento em que se tem a noção de todos os controles que cercam sua vida, principalmente os aversivos e punitivos, deve-se haver uma reação, ou seja, o contracontrole, por meio de uma manifestação ou um protesto. Para ele, poder e controle estão altamente interligados, já que quem possui o poder, conseqüentemente deterá o controle em suas mãos, sendo uma das maiores agências controladoras, o Estado.
Os chineses apesar de serem a maior nação não estimulam e nem permitem o contracontrole devido ao comportamento político vigente no país. É possível notar tal atitude nas preparações para umas das maiores competições mundiais, as Olimpíadas. Tendo como uma das metas para esses jogos superar o número de medalhas douradas e ultrapassar seu maior rival no quadro geral, os Estados Unidos, a China não poupou esforços para incentivar e impor seu desejo competitivo em seus atletas para um fim vitorioso, o que os acaba levando a não terem consciência de que isso também é um tipo de controle abusivo. Porém, tal controle acabou favorecendo a China que foi um dos países mais vitoriosos em todas as edições dos jogos, atingindo seus objetivos além de toda, quase impecável, organização. O resultado dessa união viu-se presente principalmente na grandiosidade desde a abertura até o encerramento, que entrou na história das Olimpíadas, ficando para Londres, uma missão difícil de superar, já que a China é marcada por esse grande controle social. Controle este de certa maneira incontestável.
Para o bom andamento dos jogos e para que o espírito olímpico prevalecesse, a China, foi obrigada a abrir mão de certos valores, revelando não ser tão fechada. O legado das Olimpíadas, a abertura e liberdade “mascaradas”, alta receptividade para outras culturas, não irá se perpetuar, logo que o espírito comunista usurpará o olímpico.
Pelo Trio Elementar